A admiração por médicos que cuidaram de sua doença fez com que Fábio Batista abraçasse a carreira de ortopedista.

drFabio_pacienteAntes de freqüentar hospitais como médico, por muitos anos Fábio Batista, foi paciente. Tendo um câncer no joelho esquerdo diagnosticado quando tinha 16 anos, Batista precisou passar por uma série de tratamentos e mudança de hábitos. A doença acabou influenciando em sua escolha profissional. Batista é especialista em medicina e cirurgia do tornozelo e pé, atua na prevenção, diagnóstico e tratamento do Pé Diabético e da amputação de membros e na reabilitação do amputado.

Nessa entrevista Batista explica porque escolheu a medicina, como foi quando teve que decidir por amputar sua perna esquerda e ainda fala sobre suas especialidades clínicas.

Sentidos: Na adolescência você descobriu que tinha um câncer no joelho. Como foi esse período?
Fábio Batista:
É óbvio que a descoberta de um tumor ósseo de alta malignidade no joelho de um adolescente não é nada agradável e muito menos fácil de encarar.
Surpreendidos com a notícia, tivemos (eu e a minha família) momentos bastante angustiantes, repletos de medos, incertezas, inconformismos e frustrações. O diagnóstico de um tumor maligno no joelho esquerdo aos 16 anos de idade e o rápido encaminhamento a profissionais especializados, certamente proporcionou uma mudança radical nos hábitos, rotinas e, sobretudo, nos valores e projeções que formamos na vida.
Felizmente fomos recebidos por profissionais fabulosos que nos informaram sobre todo o tratamento a ser realizado, as possibilidades de cura, o tempo médio de seguimento e os eventuais insucessos.

Sentidos: Como foi o tratamento?
Fábio Batista:
  Após uma bateria de exames, rapidamente se iniciou o tratamento que consistiu de quimioterapia e cirurgia com a remoção do tumor e a substituição do joelho doente por uma articulação artificial. Tudo isso acrescido de cooperação e amor provenientes de uma solidez familiar, só pôde trazer enriquecimento e sucesso em todos os aspectos. O resultado final foi mágico.

Sentidos:  Foi nessa época que descobriu que queria ser médico?
Fábio Batista:
Até o momento que antecedia toda esta história, estava completamente desprovido de vocação profissional. O envolvimento estreito com todos aqueles profissionais de saúde que me assistiram e a projeção deles como ídolos, despertou em mim o interesse pela medicina. O evento que parecia ser uma tragédia foi o que proporcionou a minha escolha profissional.
Ingressei na Faculdade de Medicina e a concluí com louvor. O próximo passo foi a escolha da especialidade, e por ironia do destino, optei pela Ortopedia e Traumatologia. Dá para imaginar o por que?

Sentidos:  Quando surgiu a necessidade de amputar sua perna?
Fábio Batista:
Por ironia do destino pela segunda vez, 16 anos depois do início de tudo, fui submetido a uma amputação no meio da coxa esquerda, decorrente de complicações de cirurgia prévia para troca do joelho artificial que mantinha. É óbvio que também não foi fácil. No entanto, preservar um membro que funcionalmente não vinha se desempenhando adequadamente, me trazia uma qualidade de vida bastante prejudicada.

Sentidos:  Você se considera reabilitado?
Fábio Batista:
Hoje integro à disciplina de Ortopedia do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), administro muito bem a amputação sofrida, usando uma prótese de alta performance e me reintegrei totalmente à sociedade. Profissionalmente, socialmente e afetivamente.

Sentidos: Como você analisa o meio profissional na área em que atua?
Fábio Batista:
Tive a oportunidade de morar nos Estados Unidos e me especializar no tratamento do Pé Diabético e feridas complexas e na reabilitação integral e comprometida do amputado. Considero essa área de atuação bastante carente de profissionais realmente envolvidos e familiarizados com a abordagem adequada sobre o tema. Tive experiências fantásticas e aprendi a lidar muito bem com o mundo dos portadores de pé diabético e dos amputados.
A amputação de membros não deve ser vista como procedimento de salvamento ou de última escolha, indicada somente após se ter exaurido todas as possibilidades disponíveis para a manutenção do membro. Esta deve ser vista de forma otimista e real por ser o início de um processo de reabilitação e por proporcionar, muitas vezes, a reintegração social e afetiva desses pacientes. A amputação requer procedimentos técnicos altamente especializados e exige do ortopedista treinado e especializado, familiaridade com as doenças que acometem os tornozelos e pés, além de conhecimento dos níveis de amputação possíveis, do processo de reabilitação e acompanhamento evolutivo das soluções protéticas disponíveis.

Para pensar:

” Seria uma crueldade pensar que todos os médicos deveriam passar por experiências como esta. Entretanto, aqueles que foram escolhidos para tal missão, certamente deveriam aprender a importância da humanização da saúde” .